Pandemia e crise institucional no Brasil: entre demissões e discordâncias

Pandemia e crise institucional no Brasil: entre demissões e discordâncias

Em meio a maior tensão mundial dos últimos anos provocada pelo COVID-19, a demissão do então ministro da justiça Sergio Moro veio se sobrepor à pandemia e pesar ainda mais nas costas do país. O Brasil atravessa não só uma crise sanitária de escala maior mas também uma profunda crise política.

A saída do então ministro da saúde Luiz Henrique Mandetta já havia mostrado a divergência que existe dentro do próprio governo. Tanto a mídia quando a população receberam mensagens diferentes quanto às posturas a tomar face ao COVID-19: enquanto Mandetta propunha medidas de isolamento social, o presidente propunha que não houvesse interrupção da vida normal, indo à contramão das recomendações da OMS e da maioria dos governadores do país. Uma clara polarização se criava e, em meio a este contexto delicado, o superministro Moro pediu demissão e fez alegações que comprometem o Presidente Jair Bolsonaro. Segundo Moro, Bolsonaro teria insistido na troca do diretor da Polícia Federal. O Presidente queria alguém dentro da PF que fosse de sua confiança e que lhe fornecesse informações sob demanda. Moro, prezando pela independência da Polícia Federal, negou o pedido do Presidente que, mesmo assim, licenciou o diretor nomeado por Moro, Maurício Valeixo, e usou indevidamente a assinatura do ministro para efetuar o licenciamento.

Sergio Moro foi uma das maiores bandeiras eleitorais de Bolsonaro e certamente por causa dele conquistou boa parte de seus eleitores. Em 15 meses de governo Bolsonaro, Moro foi o oitavo ministro a deixar o cargo e a evidenciar a falta de entendimento que parece existir dentro do Palácio do Planalto. Evidentemente, o mercado reagiu mal à demissão. No mesmo dia, a bolsa despencou mais de 6% segundo dados da Revista Veja. Todas as medidas políticas atuais que fogem das promessas iniciais do governo faz com que a taxa de confiança dos investidores caia por água a baixo. Bolsonaro havia prometido dar carta branca a Sergio Moro para guiar suas políticas publicas como bem entendesse. Hoje, após demissão do diretor da PF, vemos que a carta branca não existe a algum tempo.

A dúvida que fica no ar e que faz a desconfiança permanecer ativa no mercado financeiro é se a carta branca de Paulo Guedes, o segundo superministro do governo Bolsonaro, ainda existe. Bolsonaro e a Casa Civil lançaram na semana passada o plano econômico Pró-Brasil, um plano intervencionista que difere das ideias liberais de Guedes. Vale lembrar que este plano econômico não contou com a participação do ministro da Economia. E ele não deixou de demonstrar o seu descontentamento ao apelidar as medidas de “Plano Dilma 3”, se referindo aos Planos de Aceleração do Crescimento (PAC) 1 e 2, formulados por Dilma Rousseff.

Por essas e outras, o mercado e população se perguntam se o próximo ministro a deixar o seu posto será Paulo Guedes, visto que o Presidente e a Casa Civil estão atualmente tomando medidas econômicas sem o aval do seu Superministro. Segundo o jornalista da Veja, Machado da Costa :

“o risco é duplicado aos olhos dos investidores. Se Moro era a segurança institucional do governo, Guedes é visto como o fiador da recuperação econômica do país — abortada pela pandemia do novo coronavírus.”

Dentro de um panorama politicamente instável e de uma crise sanitária mundial, o Brasil passa por um período difícil e o capital foge do país. As alegações de Moro suscitaram um grande movimento da classe política que pretende investigar tais acusações. Pedidos de impeachment contra o Presidente - alegando interferência política na Polícia Federal - começam a se acumular à medida que ele perde apoio de boa parte da população. Até o dia 27 de março, 29 pedidos já foram protocolados,  número igual de pedidos de afastamento que recebeu o ex-presidente Fernando Collor durante o seu mandato, segundo a Valor Econômico. Do outro lado, o Presidente Bolsonaro se defende fazendo alegações contrárias e acusando Moro de querer subir ao STF em troca de atendimento aos seus pedidos.

Frente à estas acusações, o presidente da Câmara dos deputados Rodrigo Maia, afirmou na noite de segunda-feira (27/04/2020) que toda comissão de inquérito contra o presidente (CPIs), assim como os pedidos de impeachment devem ser olhados “com muita cautela”. Ele pediu paciência aos brasileiros e afirmou que a prioridade do momento é o controle da pandemia e a geração de renda para a população.

Em linhas gerais, vemos um cenário político que corresponde mal às urgências sanitárias do País e que, mesmo acelerando o desconfinamento em prol da economia, acaba por prejudicar o mercado e o bolso dos brasileiros com a sua instabilidade.

Última Atualização em 28/04/20

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